segunda-feira, 16 de junho de 2008

MACHADO DE ASSIS, O ALQUIMISTA

A uma primeira impressão, a figura de Machado envolto na eternidade destinada aos homens célebres, muito provavelmente assustaria o leitor mais assíduo. Porém, após alguns “dedinhos de prosa” e já convidados para o chá, irremediavelmente seduzidos por sua narrativa, logo nos consideramos íntimos do mestre. Mas como pode dar-se tão inverossímil oxímoro? Como podemos nós, “homens de rodapé”, estarmos convidados à sua intimidade? Como escalamos de repente sua torre de marfim?
Devo confessar que arquiteto aqui um blefe: há pouco me dispus a vencer o temor de não estar à altura do leitor que Machado pretendia, e agora já o chamo apenas por “Machado”. Mas digo blefe, pois o que posso eu acrescentar a tudo o que já foi dito sobre ele? Pretensão? Talvez, mas talvez uma certa ousadia despertada pelo espírito irônico do amigo de há pouco.
Entretanto percebo que o leitor ao qual Machado buscava era justamente o leitor disponível: disponível a caminhar por entre as linhas, a compreender a trama de sua tessitura, disponível a ser forjado e educado pelo mestre alquimista. Pois se o texto não está pronto até que alguém dê voz e vida ao narrador, o leitor também não está. Ler não é simplesmente decodificar, ler é transpor as palavras, revirá-las, contorcê-las, até que estas balbuciem, já fatigadas, o seu derradeiro sentido, geralmente oculto ao olhar desatento. Nessa parte entra justamente a maestria do mestre, transmutando seu leitor no que este possui de mais íntimo: sua maneira de experimentar o outro.
No entanto, este grande entre os seus, entre os que vieram e entre os que estão por vir, foi ele mesmo composto pelos mesmos elementos que compõe os homens comuns, elementos que compõem a raça brasileira, que formam os gagos, os mestiços e os excluídos em geral, aos quais muitas vezes são negadas oportunidades, e que precisam eles mesmos recriá-las e fortalecer-se galgando obstáculos.
Não pretendo aqui compor retrato de nosso amado e imortal confidente, não ousaria tanto, desejo apenas compartilhar a impressão que este “novo amigo” causou ao meu olhar pouco experimentado.
Mais importante do que descobrir se Capitu, de fato, traiu Bentinho, é o próprio questionar. E através de suas suprimidas linhas, Machado nos revela o quanto é importante perguntar. Nada está completo e deve ser aceito como tal, a importância de perguntar revela-se na superficialidade estática que oculta a transitoriedade das essências. Não há crescimento no “aceitar” passivo, sem o questionamento não existe o caminhar.
Mesmo em sua vivência, o escritor nos revela a falta de aceitação a uma realidade pronta, não aceitando, sobretudo, a posição social a que lhe era por “destino” reservada, construindo-se ao invés de dar-se por concluso.
Filho de “mulato pintor” e de “lavadeira portuguesa”, Machado de Assis perdeu muito jovem ainda mãe e pai. Porém fora adotado pelo coração de sua madrasta, que, sem saber, deu-lhe ferramenta poderosa: as primeiras lições de alfabetização. Sem, no entanto, ter freqüentado escola regular, muito cedo percebeu que “a maior de todas as escolas é a vida”, nunca perdendo as oportunidades que esta lhe reservava ao aprendizado: era um autodidata.
Assim, através de intervalos para leitura, em que se furtava de seu ofício em tipografia, projetou-se de menino descalço a brincar no morro do Livramento às glórias da Corte, a ocupar altos cargos burocráticos e a receber honrarias e homenagens. No casamento encontrou a felicidade em sua plenitude conjugal: D. Carolina, esposa e amiga que veio a suprir-lhe as derradeiras ausências, dando-lhe talvez o que “não achou na solidão das noites nem no tumulto dos dias...”.
Poeta, Cronista, Contista, Romancista; Romântico e Realista, deixou-nos através de sua Vida e de sua Obra uma oportunidade para repensar a organização do mundo (real ou ficcional), escancarando-nos sutilmente a coxia de seu palco, denunciando uma realidade desvendada por seu olhar, sem ocultar ou deixar se perder, no entanto, a poesia presente nas coisas prosaicas.
Seu foco não eram as criaturas grandiosas ou as situações de glamour, mas sim o homem comum, o pequeno burguês e as aparências de sua vida. Ao descrever, não costumava deter-se por muito tempo a delinear cenários físicos, sua fotografia pretendia captar o máximo da alma humana: esse era o cenário que mais lhe interessava, o cenário em que se desenrolavam as paixões, em que se revelavam as camadas que o figurino tende a ocultar.
Assim parece-me Machado: um agitador a perturbar nossas convicções, a tumultuar nossos espíritos, a denunciar aparências; revelando-nos a nós mesmos com elegância e beleza. Assim parece-me Machado a romper as fronteiras do tempo e do espaço, realizando sortilégios, conjurando personagens eternos, projetando-se mais e mais em nosso presente, eternizando-se em nossas leituras e inserindo-nos em suas páginas...

Um comentário:

Fellipe M.D disse...

Na verdade a obra O Alquimista é de Paulo Coelho e não do Machado de Assis, a obra dele é o Alienista xD